Castração de cães

Deverei mandar castrar o meu cão?

A castração constitui um procedimento de rotina na medicina veterinária – mas será sempre recomendada? Qual a diferença entre castração e esterilização e quais os custos para o dono do animal? Neste artigo encontrará toda a informação de que necessita acerca desta matéria, além dos prós e contras da castração.

Prós e contras da castração

✅  Prós

  • Contraceção segura e permanente (no entanto, irreversível)
  • Desaparecimento dos sintomas do cio, como corrimento sangrento ou falsa gravidez (nas fêmeas)
  • Secreção prepucial nos machos (corrimento amarelo-leitoso)
  • Proteção contra determinadas doenças, como tumores mamários, cancro nos testículos e desconforto na próstata. Nas fêmeas, só é possível com castração prematura
  • Diminuição de comportamentos agressivos relacionados com o instinto sexual (ausência de atitudes agressivas relativamente a outros machos e pares

Contras

  • Riscos relacionados com o procedimento cirúrgico invasivo
  • Perturbação do equilíbrio hormonal natural do animal com consequências de grande alcance para o organismo e também a nível psicológico, particularmente problemático em casos de castração prematura (risco do desenvolvimento de doenças do sistema musculoesquelético e estagnação do desenvolvimento mental)
  • Tendência para o excesso de peso e obesidade (comum nas raças Labrador Retriever, Cocker Spaniel e Beagle)
  • Risco elevado de incontinência urinária (especialmente em fêmeas de raças de grande porte, como Dogue alemão, Terra-nova, Leonberger, Boxer, Schnauzer gigante e Dobermann) e aumento do risco do aparecimento de outros tumores
  • Alterações na estrutura do pelo (em particular em raças de pelo comprido), sinónimo de cuidados mais complexos com o pelo

Castração: uma decisão fácil?

Qualquer dono que não pretenda fazer criação de animais irá, mais cedo ou mais tarde, interrogar-se se deverá mandar castrar o seu fiel companheiro de quatro patas. Porém, é importante ter presente que a decisão final não diz apenas respeito ao dono.

É importante reforçar que a castração é feita recorrendo-se a anestesia geral, não devendo, assim, ser subestimada como procedimento, tanto no que diz respeito ao equilíbrio hormonal como ao organismo do cão no seu todo.

Será a castração adequada para todos os cães?

Castrar ou não um cão é, então, uma decisão que requer ponderação. Para que sejam evitadas surpresas desagradáveis ou deceções relativas a expectativas não satisfeitas, o médico veterinário deve explicar em detalhe os prós e os contras do procedimento. Informe-se acerca da operação em si, do processo de recuperação e das alternativas possíveis e reserve algum tempo para refletir antes de tomar uma decisão definitiva. É fundamental que o veterinário conheça bem o animal antes de fazer recomendações. A castração não constitui a solução ideal para todos os cães – cada caso é um caso e é imperativo que os prós sejam superiores aos contras. Fatores individuais, como raça, género, idade, peso, tamanho e comportamento social são determinantes para a decisão. Se não se sentir totalmente seguro ou tiver a sensação de que o médico veterinário não está a ser claro o suficiente, não hesite e procure uma segunda opinião.

Castrar ou esterilizar?

Ao contrário do que acontece numa castração, ou seja, quando os ovários ou os testículos são removidos por completo, no caso da esterilização apenas as trompas de falópio ou o canal deferente são cortados. O procedimento é, então, menos dispendioso do que uma castração, mas é também realizado sob anestesia geral. Com a esterilização, a reprodução dos animais é prevenida de forma permanente. Porém, estes mantêm-se sexualmente ativos, tal como anteriormente à operação, já que, ao contrário da castração, a esterilização não tem quaisquer efeitos no equilíbrio hormonal dos cães. As funções fisiológicas e os comportamentos não mudam. As cadelas continuarão a ter períodos de cio e os machos a corresponder-lhes.

Quanto custa castrar um cão?

O preço está entre 100 e 250 euros se é um macho, e pode chegar a custar entre 200 e 300 euros no caso das fêmeas. O preço depende de factores como o sexo e o peso do animal, o tipo de anestesia, a zona geográfica e a clínica veterinária.

Como se processa esta operação no veterinário?

A castração é operação de rotina para os veterinários, mas será que, como dono, sabe como se processa?

  • Obtidos os conselhos e tomada a decisão, é chegado o momento de marcar a operação junto do veterinário. É aconselhável estar livre de obrigações laborais no dia da operação e no seguinte, podendo assim fazer companhia ao animal. Adie eventuais visitas, já que tranquilidade e descanso serão essenciais para o cão após a operação.
  • Tal como acontece connosco, humanos, também os cães devem permanecer em jejum durante as 12 horas que antecedem o procedimento, além de beberem mais água do que o habitual.
  • Antes da operação ter início, dê um breve passeio com o animal para que este possa urinar e defecar.
  • O cão será cuidadosamente examinado antes de receber a anestesia.
  • Após a sedação, o animal (sendo dada especial atenção às reações à anestesia), é monitorizado, sendo-lhe ainda colocado um tubo, ligado à máquina de anestesia e ao fornecimento de oxigénio.
  • O patudo está finalmente preparado para a operação e o pelo da área alvo de intervenção será rapado e a zona desinfetada.

Diferenças entre a castração de fêmeas e machos

Castração de cães

Relativamente aos machos, é feita uma incisão no escroto. Os testículos e os epidídimos são deslocados, o cordão espermático e as veias sanguíneas são ligadas. Desta forma, ambos os testículos podem ser removidos através de uma única incisão. No caso de o escroto estar deslocado, este deve ser removido. É muito raro, mas se um ou ambos os testículos não tiverem descido para o saco escrotal (criptorquia), permanecendo na virilha ou na cavidade abdominal, é necessário considerar uma intervenção diferente.

Após o procedimento, a ferida é cuidadosamente suturada, a anestesia cessa e o animal é mantido sob observação até ao momento em que acorde. Para evitar que o cão lamba a ferida, deve usar uma proteção para o estômago ou um colar protetor.

Após a operação, é importante que sejam evitados grandes esforços – isto até que os pontos sejam removidos, cerca de 10 dias depois. Além disso, para que a ferida cicatrize bem não deve ser aplicada qualquer tipo de pressão sobre a mesma. O aconselhável é manter a trela curta e adiar os passeios mais longos e aventureiros para mais tarde. Também subir escadas e saltar desde o sofá ou do porta-bagagens são movimentos a evitar.

Aproximadamente duas semanas depois, o seu patudo voltará ao normal e nada os poderá demover da atividade física. O custo do procedimento varia de acordo com o género e o peso do animal e, também, do tipo de anestesia.

Castração de cadelas

No caso das cadelas, a parede abdominal é aberta através de um corte que atravessa a pele, o tecido subcutâneo e os músculos. O corno uterino, as veias e as artérias são ligados e os ovários removidos. Este tipo de procedimento é designado por ovariectomia. Em alguns casos, raros, é recomendada a remoção total do útero, denominada por ovariohisterectomia.

Removidos os ovários, a parede abdominal é cosida e o suprimento do anestésico termina. Até que acorde, a cadela é mantida em observação. Logo que o animal esteja totalmente acordado e consiga andar, podem regressar ambos a casa. Levará consigo medicação para as dores.

É marcada para o dia seguinte uma consulta de acompanhamento. De modo a proteger a ferida, a cadela deve usar uma peça de roupa especial em redor do estômago, até que, aproximadamente 10 dias depois, os pontos são removidos.

Alterações após a castração de um cão

  • A remoção total dos testículos ou dos ovários representa uma alteração enorme no equilíbrio hormonal natural dos animais.
  • O cio, as perdas de sangue e a gravidez psicológica nas cadelas, e a designada secreção prepucial nos machos (abominada pelos donos, dados os constrangimentos higiénicos) são questões que não se aplicam a cães e cadelas castrados.
  • Em raças com o pelo comprido pode ocorrer que a estrutura do pelo mude. O pelo profundo da cama interna torna-se mais espesso e cobre a camada superior do cão, dando-lhe assim uma aparência descuidada e sem brilho.
  • O aumento de apetite e a redução do exercício em muitos cães castrados faz com que estes fiquem com excesso de peso.

Castrar um cão protege-o contra o cancro?

Entre as razões médicas apontadas para a realização deste procedimento, a salvaguarda contra o cancro e outras doenças associadas às hormonas sexuais é muitas vezes mencionada. De facto, a castração pode reduzir o risco de determinados tumores. Nos machos, o risco de cancro nos testículos e das doenças da próstata é reduzido. No caso das fêmeas, a probabilidade de se dar a fatal supuração do útero e o aparecimento de certos tipos de tumores (mamários) diminui também.

 

Apesar de boas estas perspetivas, é frequente ignorar-se o facto de que a prevenção contra o cancro nas fêmeas apenas acontece quando a castração é feita muito precocemente – o risco de cancro é efetivamente reduzido se a operação for realizada antes do primeiro cio. Assim sendo, feita após o primeiro cio ou em idade adulta, a castração tem efeitos menos positivos.

Por outro lado, a castração precoce pode ser sinónimo de problemas e de doenças no sistema musculoesquelético. Além disso, cães e cadelas castrados veem aumentadas as probabilidades de serem acometidos por outros tumores; de acordo com várias investigações, a castração em tenra idade contribui de forma negativa para a ocorrência de tumores cardíacos, do baço e ósseos.

O comportamento dos cães sofre alterações depois da castração?

Um outro aspeto importante da castração diz respeito ao seu impacto no comportamento dos cães. A remoção cirúrgica dos órgãos sexuais não provoca apenas alterações a nível físico, já que tem uma influência decisiva a nível da mente e do comportamento social do cão. É comum os donos dos machos observarem na castração o último recurso disponível – as atitudes agressivas, impulsivas e de inquietação, controladas pela hormona sexual testosterona, cessam com a castração. Na verdade, um macho castrado irá comportar-se tranquilamente na presença de uma cadela com o cio, além de deixar de lado a atitude competitiva em relação a outros machos. Será raro observar o animal a uivar, ladrar e atacar por motivos relacionados com impulsos sexuais.

No entanto, a ideia de que um macho se torna, após a castração, num animal mais afável constitui uma falsa crença. Este procedimento médico afeta somente comportamentos relacionados com as hormonas sexuais. Atitudes agressivas, consequência da ausência ou de educação desadequada, não são possíveis de evitar com a castração. O animal não se torna obediente através da cirurgia. Se o animal tem problemas comportamentais, a primeira coisa a fazer é perceber qual a fonte da agressividade; só no caso de a atitude agressiva estar diretamente relacionada com o instinto sexual é que poderá ser útil castrar o animal. A castração não é certamente indicada para a correção de problemas comportamentais de caráter geral, como agressão territorial ou problemas de relacionamento. Aliás, a assim designada hipersexualidade dos machos, manifesta quando o animal se monta em diferentes objetos e executa movimentos de copulação, não é motivo para castração. Uma educação consistente e a utilização do potencial físico do cão são as bases para o treino destes animais.

Quando se recomendada a castração?

Ao analisar-se as muitas vantagens e, também, as muitas desvantagens não é então surpreendente que o tema da castração seja tão controverso entre os donos. À pergunta “faz sentido castrar o nosso cãozinho?” o espírito dos donos divide-se – ao passo que para alguns a ausência de manifestações de sintomas físicos relacionados com a sexualidade constituem uma verdadeira benção, outros concentram-se no impacto, de difícil avaliação, no organismo do cão. Todavia, na grande maioria destas discussões esquecemo-nos de que não é possível chegar-se a um “sim” ou a um “não” claros quanto à realização ou não do procedimento. Se esta intervenção é um passo na direção certa é algo que só pode ser decidido caso a caso. As motivações de cada dono para avançar com este procedimento devem ser também analisadas, incluindo o seu estado de saúde e as causas para certas atitudes. Seja qual for a sua decisão, se se informou da melhor forma e se só procura o bem estar do seu patudo, terá certamente feito a melhor escolha.

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